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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Contos do VHS - Conto 01 - Obra Prima

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Finalmente estou chegando em casa, mal me aguento de saudade dela, afinal um mês inteiro sem lhe ver é realmente difícil. Mês que há muito eu aguardava, minha grande série de exposições, onde pude mostrar minhas obras aos maiores colecionadores e curadores do mundo. Como já havia premeditado eles adoraram e, com as vendas, lucrei três vezes mais que o previsto. E agora volto para casa muito satisfeito, satisfação que só não supera o reencontro com meu amor. A primeira exposição foi em Londres, e, não apenas por ser a minha primeira grande exposição, foi a mais complicada. Afinal, vender para aqueles velhos britânicos que,  mesmo depois de meio século sendo aceito e exaltado pelo mundo inteiro, acreditam que o expressionismo abstrato é lixo americano. Mas isso não impediu meu sucesso, os londrinos amaram a agressividade de meus traços quentes em contraposição às suas paredes frias e sem vida, o que nos propõe uma linda ironia. Os espanhóis e portugueses, amantes inveterados de magenta se derreteram pelos vermelhos inolvidáveis. Os Italianos, entusiastas como sempre, falaram muito, mas não compraram mais que o esperado. Os alemães foram os que mais me surpreenderam, consegui ver relances da minha dissonância mental em suas faces extremamente disciplinadas. Gostaram tanto que esgotaram o que lhes tinha separado e fizeram dezenas de encomendas. Cheguei à Paris com minha coleção mais especial, as obras que mais me divertiram e me deram prazer. Vendi tudo em menos de duas horas e os franceses me fizeram prometer uma nova exposição ainda neste mesmo ano. Mas mesmo depois de todo esse efetivo sucesso nada me desconcerta mais que a proximidade com meu amor. Entro em minha casa mas nem acendo às luzes, afinal não quero que nada ofusque o brilho dela até vê-la, deixo minhas coisas no hall de entrada e subo as escadas rapidamente para meu quarto, destranco e abro a porta, olho fixamente para a parede à frente e com a mão direita acendo a luz. Ela está la, exatamente como em minhas lembranças, pendurada na parede acima da cabeceira de minha cama, meus olhos percorrem todos os 6 metros quadrados de tela, ainda consigo distinguir seu sangue das tintas, chego mais perto do quadro, consigo ouvir seus gritos à partir das vibrações que eles deixaram na tinta, reconheço o amarelo de seu suco estomacal ao lado do marrom que brilha como se fossem seus lindos olhos. Assim, fecho os meus e relembro àquela noite, a noite em que a trouxe à esse mesmo cômodo e disse que finalmente ela veria o artista que ela amava em ação, a noite em que seus suspiros e gritos de prazer reverberaram a tinta fresca na tela, em que nosso amor virou arte, em que sua expressão de horror ficou eternamente marcada em minha pintura, em que o que corria em suas veias viraram parte de uma grande obra, em que suas lágrimas viraram minha obra-prima.

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Max Gehringer